Vogais nasais: e agora?

Você está aprendendo português e na hora da conversação sente muita dificuldade com os sons nasais? Passou por alguma situação embaraçosa recentemente porque não conseguiu nasalizar uma vogal e a pessoa com quem você estava conversando ouviu algo diferente do que você imaginava?

Se você se enquadra nessas descrições, nosso abraço solidário: você não está sozinho. Este texto vai te ajudar a entender o porquê de isso acontecer e também dar dicas para superar essa dificuldade.

Para começar, você sabia que, embora a gente conte só cinco vogais no alfabeto, o português brasileiro tem 12 sons de vogais diferentes? Desses sons, cinco são nasais e sete, apenas orais. Esses sons orais e suas variedades é que causam confusão quando você escreve “avô” e “avó”, mas não consegue fazer a distinção entre masculino e feminino na oralidade, por exemplo. Mas não vamos procurar cabelos em ovos.

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Eles já estão cansados de ouvir que não ter cabelo é uma complicação. Na verdade, essa expressão significa ‘procurar problemas que não existem’.

Para produzir as vogais nasais, vamos usar duas partes do aparelho fonador: a cavidade oral e a cavidade nasal. Mas como isso funciona?

Se você observar a figura abaixo, vai notar uma parte verde com a extremidade mais escurecida. Bem nessa extremidade, há a úvula, que “veda” a passagem de ar para o nariz, produzindo sons não nasais, como em “casa”, “parede” e “escola”.

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Veja a diferença na imagem abaixo:

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Nesse caso, quando produzimos os sons nasais, a úvula (aquela extremidade verde escura, lembra?) não fecha a passagem de ar. Assim, o som sai tanto pelo nariz quanto pela boca. É dessa forma que são produzidos os sons nasais. Interessante entender um pouco da máquina humana, não?

Essa percepção física pode nos ajudar na produção desses sons. Imagine como você pronunciaria:

[ã], [ẽ], [ĩ], [õ], [ũ]

Ficou difícil imaginar? Então, experimente ler em voz alta:

“Mãe, tem muito vento, o tempo tá ruim, então, põe o pão no fogão que eu vou ligar o som e descansar do mundo”.

Esses sons estão em uso constante no português brasileiro. Sabemos que eles são um desafio, mas isso também depende muito da(s) língua(s) que você fala.

Por exemplo, se você é falante de espanhol, vai precisar ter atenção redobrada na pronúncia, pois o espanhol não tem vogais nasais. Para os falantes de inglês e francês, essas vogais podem não ser um bicho de sete cabeças (ou um problemão) quando aparecem sozinhas nas sílabas, pois essas línguas têm sons nasais também. O problema é quando esses surgem nos ditongos “ão”, “ãe” ,“õe” e “ũi” (sim, como em ‘muito’), como você leu no desafio lá em cima.

A origem dos sons nasais da língua portuguesa é devida ao seu ancestral linguístico, o latim. Mas não vamos culpar ninguém, afinal, a gente sabe que esses sons, em especial os ditongos, dão muito charme à língua. Você já parou pra pensar em quantas músicas e poesias há rimas com eles?

Um desafio pra você: cante junto com o Lenine, um grande cantor e compositor da Música Popular Brasileira, a música “Ecos do ão”, um verdadeiro manifesto social.

Mas, se nós temos planos, e eles são
o fim da fome e da difamação
Por que não pô-los logo em ação?
Tal seja agora a inauguração
da nova nossa civilização
tão singular igual ao nosso ão
e sejam belos, livres, luminosos
os nossos sonhos de nação.

Até a próxima!
Professora Eugênia Fernandes
Equipe Icepe


Fonte das imagens do aparelho fonador: http://fonologia.org